Subscribe to
Apr
10

Ferenghi estrangeira

Posted by Andre Mafra under novela

Trecho do livro Arqueologias Culinárias da Índia de Fernanda Camargo – Moro

 Ao voltar ao Kashmir, no outono do ano seguinte ao do  casamento de Chakori – época em que ganhei as receitas- , fui passear certa manhã com Umma pelo Lago Dal, junto aos jardins flutuantes. Conversávamos sobre a subzi rus, uma velha receita de sopa amada pelas mulheres, pois dizem que emagrece, e fomos escolhendo e comprando os legumes frescos.

De lá, fomos até o mercado da Cidade Velha em busca dos cogumelos e especiarias. Naquele dia, o mercado parecia um verdadeiro mostruário de cogumelos. Além disso, havia grandes cestões repletos de legumes e verduras, onde se destacavam os enormes dedos brancos dos rabanetes e os bulbos das praan, as cebolas da região. Nas casinholas que vendiam especiarias, o cheiro dos cordões de chiles vermelhos secos misturava-se com os dos sacos de pimenta negra do malabar, de cravo, de cardamomo e de feno-grego, e víamos penduradas as garrafas de ylang, além de perfumados pedaços de canela e outras delícias. Umma perguntou se eu conhecia dalchin (canela) e roung (cravo).

Fui explicando como as primeiras mudas destas especiarias tinham chegado a Ásia e se expandindo no Brasil. Continuamos a falar da migração das plantas e a tentar compor um vocabulário de especiarias em kashmiri e português, enquanto íamos remexendo nas raízes de curcuma e de gengibre fresco que estavam sobre uma mesinha. Mais no fundo, num canto, descobrimos as caixinhas chatas com estigmas do verdadeiro açafrão, e os kanegach, cogumelos negros secos, hoje tão caros que se tornam proibitivos para grande parte da população. Íamos  continuar nosso caminho entre as banquetas quando um grupo de homens se aproximou de nós. Começaram a me olhar fixamente; de repente , me cercaram e  me perguntaram pela burkha e pelo chador, isto é, pelo véu e pelo grande xale preto que deveriam cobrir o rosto das mulheres, um dos limites que são impostos às muçulmanas. Tentei explicar que não era muçulmana, e me perguntaram pela tikka, o ponto vermelho ou negro entre os olhos que usam as hindus. Afirmei que não era hindu; mostrei então a pequenina cruz de meu colar, e cada um deles segurou a cruz por alguns instantes, olhando bem para mim, até que, finalmente, foram embora, resmungando: “Ferenghi christen”(estrangeira cristã).

Olhei para Umma, que franzia o cenho. Sua  tikka vermelha parecia enorme, marcando o centro de suas sobrancelhas. Tive medo de que ela falasse alguma coisa, mas felizmente, não deu tempo. O fundamentalismo e alastravam pelo vale. As pessoas voltavam a ter de se identificar com símbolos para sobreviverem. Umma, entristecida e preocupada, tentou disfarçar, escolhendo, entre muitas mercadorias, uma dressed chicken (galinha viva), um punhado de cogumelos negros, uma caixinha de koung ou zafran, como dizem os persas, e me convidou para tomar à famosa sopa e ver o preparo da kookur yakhni, a afamada galinha com iogurte à moda do Kashmir, e do heddar que comeríamos no dia seguinte. O silêncio nos acompanhou até em casa.

Pobre Srinagar, a bruma já não cobria apenas o amanhecer e o anoitecer no Vale…                                                                                                                         

Sphere: Related Content

  1. yeda Said,

    oie
    o que aconteceu que vc nao esta mais publicando os capitulos da novela gravda?
    passei seu site pra muita gente e acho que caiu na mao do cara do
    http://www.tamoligado.com
    deu algum problema?
    por favor
    volte a atualizar a novela
    sempre estava em dia
    parabens pelo site
    yeda

  2. tukk Said,

    O que aconteceu com o site?nao esta mais funcionand?
    Estou tentando acessar há dias,e consta que o endereço não existe mais

  3. Andre Mafra Said,

    me parece ques está tudo bem, mas vou verificar.

Add A Comment